sexta-feira, 29 de julho de 2011

Poema do Zazen

Kodo Sawaki Roshi

Fazendo zazen calmamente no dôjô,
Colocando de lado todos os pensamentos negativos,
Obtendo nada além de uma mente sem desejos —
Esta alegria está além do paraíso.

O mundo corre atrás de fama e honra,
Roupas bonitas e conforto,
Mas estes prazeres não são a verdadeira paz —
Você corre e permanece insatisfeito até a morte.

Vista o kesa e o kimono preto e pratique o zazen,
Concentre-se com determinação —
Quer esteja quieto ou em movimento,
Veja com seus olhos a profunda sabedoria interior.

Observe e conheça intimamente
O verdadeiro aspecto de toda ação e de toda a existência —
Seja capaz de observar o equilíbrio,
Compreenda e conheça com uma mente que está totalmente calma

Se você é assim,
Sua dimensão espiritual —
A mais elevada no mundo —
Estará além de qualquer comparação.

O Rei da Mente

Hsin-wang-ming por por Fu-yu (497-569)

Contemple a mente; este rei da vacuidade
É sutil e intruso.
Sem nome ou forma,
Ele tem grande poder espiritual.

Pode eliminar todas as calamidades
E realizar todos os méritos.
Apesar de sua essência ser vazia,
Ele é a medida dos fenômenos.

Quando você olha, é sem forma;
Quando você o chama, ele ecoa.
É o grande comandante do Dharma
Transmitindo os sutras através dos preceitos da mente.

Assim como o salgado na água do oceano, de cor transparente,
Certamente está lá, mas sua forma é invisível,
O rei da mente também é assim,
Residindo no corpo.

Ele entra e sai diante dos seus olhos,
Respondendo aos fenômenos, seguindo as emoções.
Quando está despreocupado, sem obstrução,
Todos os esforços têm sucesso.

Quando você realiza a mente original,
A mente vê o Buddha.
Esta mente é o Buddha;
Este Buddha é a mente.

Todo pensamento é a mente de Buddha;
A mente de Buddha permanece no Buddha.
Se você deseja realizar isto em breve,
Esteja vigilante e disciplinado.

Os preceitos puros purificam a mente;
A mente então é Buddha.
Separado deste rei da mente,
Não há outro Buddha.

Se você deseja procurar o estado búddhico,
Não macule coisa alguma.
Apesar de a natureza da mente ser vazia,
A cobiça e o ódio são reais.

Quando você entra por esta porta do Dharma,
Sentando-se ereto, você se torna o Buddha.
Ao alcançar a outra margem,
Você atinge a perfeição.

Os verdadeiros aspirantes ao caminho
Contemplam a sua própria mente.
Sabendo que o Buddha está no interior,
Não há necessidade de procurar no exterior.

Bem agora a mente é o Buddha;
Bem agora o Buddha é a mente.
A mente brilhante conhece o Buddha;
O iluminado conhece a mente.

Separado da mente, não há Buddha;
Separado do Buddha, não há mente.
Aqueles que não são Buddhas não podem penetrar;
Não estão preparados para a tarefa.

Agarrar a vacuidade e bloquear a tranqüilidade
Resulta em flutuar e afundar.
Nem buddhas nem bodhisattvas
Estabelecem suas mentes deste modo.

O grande ser da mente brilhante
Despertou para este som sutil.
A natureza do corpo e da mente é maravilhosa;
Suas funções não precisam ser alteradas.

Assim, o sábio derruba a mente e a deixa ser.
Não diga que o rei da mente é vazio e sem essência;
Ele pode fazer o corpo
Fazer o mal e o bem.

Não existe, nem é não-existente.
Aparece e desaparece imprevisivelmente.
Quando a natureza da mente parte da vacuidade,
Ela pode ser sagrada ou profana.

Assim, imploramos uns aos outros
Que a guardem com cuidado.
No momento de se moldar,
Ele se reverte ao flutuar e afundar.

A sabedoria da mente pura
É tão preciosa quanto o ouro.
O tesouro de sabedoria do Dharma
Está dentro do corpo e da mente.

O tesouro do Dharma da não-ação não é superficial nem profundo.
Todos os buddhas e bodhisattvas realizaram este mente original.
Para aqueles cujas condições estão corretas,
Ela não é passado, presente ou futuro.

Verso da iluminação
A mão vazia segura a enxada.
Os pés andando, cavalgando o búfalo d'água.
O homem anda sobre a ponte,
A ponte flui, a água não flui.

(Adaptado de Sheng-yen, The poetry of enlightenment: Poems by ancient
Ch'an masters. Elmhurst: Dharma Drum Publications, 1987. Pág. 15, 17-20.)

Uma Mente Clara

Kuan-hsin-ming por por Han-shan Te-ch'ing (1546-1623)

A verdadeira natureza é pura e profunda
Como a água clara e calma.
Se batida com o ódio ou o amor,
Surgem ondas de irritação.
Surgindo sem cessar,
A própria natureza torna-se turva.
Irritação e ignorância
Sempre aumentam inconscientemente.

O "eu" agarrando um "outro"
É como a lama entrando na água.
O "eu" movido por um "outro"
É como jogar gordura no fogo.
Enquanto o reino externo for o caos, o "eu" será verdadeiro.
Enquanto o caos for tomado por real, o "eu" nascerá.
Se o "eu" não nascer,
As irritações, queimando por éons, transformam-se em gelo.

Assim, os perfeitos
Primeiro esvaziam a mácula do "eu".
Quando a mácula do "eu" for esvaziada,
Como o reino externo poderia ser uma obstrução?
A capacidade de se recuperar é a função
Do "eu" esquecido.
Assim que idiossincrasias aparecerem,
Você as reconhecerá imediatamente.

O objetivo do reconhecimento é a iluminação.
No instante em que um pensamento retornar ao brilho,
Todos os rastros serão limpados.
Esse momento é refrescante.
Refrescante, brilhante,
Inigualável, independente,
Tranqüilo, harmonioso,
Nada pode igualá-lo.

(Adaptado de Sheng-yen, The poetry of enlightenment: Poems by ancient
Ch'an masters. Elmhurst: Dharma Drum Publications, 1987. Pág. 99-100.)

Contemplando a Mente

Kuan-hsin-ming por por Han-shan Te-ch'ing (1546-1623)

Olhe para o corpo como irreal,
Como uma imagem em um espelho, o reflexo da lua na água.
Contemple a mente como sem forme,
Porém brilhante e pura.

Sem um único pensamento surgindo,
Vazia, porém perceptiva; calma, porém iluminadora.
Completa como a grande vacuidade,
Contendo tudo que é maravilhoso.

Nem indo nem vindo,
Sem aparências ou características,
Incontáveis meios hábeis
Surgem a partir de uma mente.

Independnete de existência material,
Que é sempre uma obstrução,
Não se apegue aos pensamentos deludidos.
Estes fazem nascer a ilusão.

Contemple atenciosamente esta mente,
Vazia, destituída de todos os objetos.
Se as emoções surgirem subitamente,
Você cairá na confusão.

Em um momento crítico, traga de volta a luz,
Iluminando poderosamente.
As nuvens se dispersam, o céu é claro,
O sol resplandece brilhantemente.

Se nada surgem dentro da mente,
Nada se manifestará fora.
Aquilo que tem características
Não é a realidade original.

Se você puder ver um pensamento assim que surgir,
Esta consciência o destruirá de uma vez,
Para qualquer estado da mente que venha,
Varra-o, derrube-o.

Tanto os estados bons quanto os ruins
Podem ser transformados pela mente.
Sagrado e profano aparecem
De acordo com os pensamentos.

Recitar mantras ou contemplar a mente
São meramente ervas para polir um espelho.
Quando a poeira é removida,
Elas também são varridas.

Grandes e extensivos poderes espirituais
Estão todos completos dentro da mente.
À terra pura ou as céus
Pode-se ser viajar à vontade.

Você não precisa procurar o real,
A mente originalmente é Buddha.
O familiar torna-se estranho,
O estranho torna-se familiar.

Dia e noite,
Tudo é maravilhoso.
Nada que encontre o confundirá.
Estes são os essenciais da mente.

(Adaptado de Sheng-yen, The poetry of enlightenment: Poems by ancient
Ch'an masters. Elmhurst: Dharma Drum Publications, 1987. Pág. 101-103.)

Acalmando a Mente

Hsi-hsin-ming por Shih Wang Ming (séc. VI)

Muito conhecimento conduz à super-atividade;
É melhor acalmar a mente.
Quando mais você considera, maior é a perda;
É melhor unificar a mente.

O pensamento excessivo enfraquece a vontade;
Quando mais você sabe, mais a sua mente fica confusa.
Uma mente confusa faz surgir a irritação;
O enfraquecido obstruirá o caminho.

Não diga que não há mal nisso;
A dor resultante pode durar para sempre.
Não pense que nada há a temer;
As calamidades agitam-se como as bolhas em uma panela fervente.

A água gotejando incessantemente
Preencherá os quatro oceanos.
As manchas de poeira não varridas
Se tornarão as cinco montanhas
[Ching-shan, Pei-shan, Nan-shan, a montanha do rei Ashoka e T'ai-po-shan].

Proteja os galhos para salvar as raízes;
Apesar de ser uma questão pequena, não é trivial.
Feche os sete orifícios [os dois olhos, os dois ouvidos, as duas narinas e a boca],
Fecha os seis sentidos [a visão, a audição, o olfato, o paladar, o tato e a consciência].

Não preste atenção às formas,
Não ouça os sons.
Ouvindo os sons, você se torna surdo;
Observando as formas, você se torna cego.

A literatura e a arte
Nada mais são que mosquitos ocupados no ar;
A técnica e a habilidade,
Uma lamparina solitária ao sol.

Aqueles capazes e talentosos
São realmente companheiros estúpidos.
Descartando o puro e o simples,
Eles afogam muita beleza.

A consciência é um cavalo indomado,
A mente é um macaco teimoso.
Se a mente estiver superativa,
O corpo ficará doente e morrerá.

A conduta errônea termina na delusão;
Aqueles que seguem por este caminho tornam-se atolados na lama.
Considerar a habilidade como preciosa
É chamado "confusão".

Exagerar a indelicadeza e a habilidade arqueada
Não conduz à grande virtude.
De muita fama, mas com pouca contribuição,
Suas reputações desintegram-se rapidamente.

Meramente ler livros
Não é de valor duradouro.
Ser orgulhoso internamente
Traz a inimizade dos outros.

Usar a fala
Ou palavras escritas
Para ganhar o louvor dor outros
É algo muito repulsivo.

O que as pessoas comuns consideram como auspicioso
O sábio toma como mal.
O deleite obtido é passageiro,
Mas a tristeza é duradoura.

Esteja consciente das sombras e rastros;
Quando mais você os deixar, melhor.
Sentando-se ereto à sombra de uma árvore,
Nem rastros nem sombras permanecem.

As preocupações do nascimento e o estresse da velhice
São produtos dos seus próprios pensamentos.
Se o pensamento da mente for terminado,
O nascimento e a morte serão cortados para sempre.

Não morto, não nascido,
Sem forma ou nome,
O caminho é vazio e tranqüilo.
Os fenômenos miríades são iguais.

O que é de valor? O que é barato?
Onde está a vergonha ou a glória?
O que é excelente ou inferior?
Como pode haver pesado e leve?

O céu claro coloca pureza na vergonha.
Nenhum brilho compara-se ao sol brilhante.
Estável como o monte T'ai,
Firme como um muro dourado.

Respeitosamente apresento este poema a todos os virtuosos,
De modo que este caminho permaneça para sempre.

(Adaptado de Sheng-yen, The poetry of enlightenment: Poems by ancient
Ch'an Masters. Elmhurst: Dharma Drum Publications, 1987. Pág. 9-12.)